Consolo na Praia, Poema de Carlos Drummond de Andrade

0Shares

Consolo na Praia

Vamos, não chores.
A infância está perdida.
A mocidade está perdida.
Mas a vida não se perdeu.
O primeiro amor passou.
O segundo amor passou.
O terceiro amor passou.
Mas o coração continua.
Perdeste o melhor amigo.
Não tentaste qualquer viagem.
Não possuis carro, navio, terra.
Mas tens um cão.
Algumas palavras duras,
em voz mansa, te golpearam.
Nunca, nunca cicatrizam.
Mas, e o humour?
A injustiça não se resolve.
À sombra do mundo errado
murmuraste um protesto tímido.
Mas virão outros.
Tudo somado, devias
precipitar-te – de vez – nas águas.
Estás nu na areia, no vento…
Dorme, meu filho.

Publicado em  Antologia Poética – 12a edição – Rio de Janeiro: José Olympio, 1978, ps. 16 e 17

 

0Shares
   

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *