Figuras III – Sizenando Nabuco, Conto de Aluísio Azevedo

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Figuras III

Sizenando Nabuco

Mais um homem de espírito que se recolheu à terra; mais um companheiro que desabou para sempre na infindável noite em que não há estrelas nem esperanças de aurora, mais uma parcela da grande e generosa alma brasileira, que se perdeu para a pátria nestes dolorosos períodos de angústia e desalento.

Sizenando Nabuco foi um lutador vitorioso como advogado público e como propagandista das mais santas e elevadas causas sociais; mas, como homem de talento, foi nada mais que uma vítima do seu meio e da desorientada época em que teve de decidir e traçar a sua carreira.

A natureza talhara-o para homem de letras; dera-lhe uma alma ardente e apaixonada de poeta; uma delicadíssima suscetibilidade nervosa, pronta sempre a vibrar sonoramente ao toque mais sutil da mais passageira asa de uma comoção.

O seu primeiro ideal foi a literatura, e durante os anos acadêmicos todo o seu esforço, todos o seus estudos fora do curso, foram a ela consagrados. Muito moço ainda, creio que aos dezenove anos, revelou-se com um drama A túnica de Nesso, que marcou a sua primeira vitória no teatro. Esse trabalho fez sensação. O Imperador chamou o autor no seu camarote, cumprimentou-o, deu-lhe conselhos.

Sizenando continuou a trabalhar, sempre com êxito, mas em breve reconheceu que no Brasil a literatura poderia ser um belo ideal de estudante, nunca porém um seguro e produtivo meio de vida para um homem de aspirações. E rejeitou as solicitações do seu talento literário, cortou as asas da sua imaginação, escondeu os seus manuscritos, e de um salto atirou-se à tribuna de advogado.

Como ao lado dos dotes de escritor, a natureza lhe pusera todos os dotes oratórios, fez rápida carreira na jurisprudência e ganhou logo o prestígio e a popularidade que o acompanharam até ao fim da sua vida de lutas sem tréguas.

Mas, já velho, enfarado dos seus triunfos jurídicos, convencido de que as glórias de um tribuno são como as fugitivas conquistas de um ator, cujo trabalho não vai além da geração que o ouviu, cansado dessa campanha da vida pela vida, em que vamos deixando dia a dia os farrapos da alma moída e esfalfada, era para os seus primitivos ideais que ele volvia os olhos desiludidos e saudosos.

– “Ah! tivera eu nascido em outro país, fora sempre e seria ainda um homem de letras!…” disse-me ele urna vez, com um triste sorriso, conversando-me sobre literatura.

Um dia de seus anos, há talvez cinco, Sizenando, sem ânimo para fazer uma festa, mas querendo viver um instante das alegrias do passado e embriagar-se por um momento com o vinho das suas primeiras ilusões, convidou um grupo de rapazes de letras para passarem algumas horas de palestra em sua casa.

Eu fui um deles.

Lá estavam o Valentim Magalhães, o Filinto de Almeida, o Urbano Duarte, o Raimundo Correia, o Luiz Murat, o Rouède, e outros.

Que noite deliciosa! O Sizenando parecia ter voltado aos seus vinte anos.

Falava de arte vertiginosamente, rindo, criticando, numa prodigalidade de pilhéria e de bom humor, que a todos nós se comunicava e que a todos nós seduzia. Com o seu espírito e com os segredos daquela prodigiosa e fascinante galanteria que era um dos mais belos privilégios do seu tipo, conseguiu transformar aquelas horas de simples palestra de rapazes no mais encantador serão literário.

Instado por todos nós, consentiu em ler alguma cousa de sua produção, mas exigiu que fosse obra do bom tempo, do tempo dos sonhos e das quimeras.

Trouxe uni manuscrito, assentou-se a uma mezinha ao centro da sala; assentamo-nos em torno dele, e começou a leitura

Sabeis de quê! De um drama tirado do célebre romance Monseur de Camors de Otávio Feuillet escrito em bom e nervoso francês, com estilo, com a naturalidade e a graça de quem escreve na própria língua.

Oh! como os seus olhos se acendiam, como a sua voz pujante se inflamava com aquelas frases apaixonadas! Como a sua bela alma romântica acordava aquela música do passado! Uma quente ressurreição de beijos da mocidade! Um delírio de amor e de mágoas sentimentais!

Depois leu outra obra, esta agora escrita em português. E de cada página o mesmo eflúvio de poesia se evolava, como um perfume dos tempos do romantismo. Aqueles manuscritos de letras amarelecidas eram as urnas de velhos bálsamo consagrados pelo sacrifício do seu talento de escritor, jaziam ali todas as suas ilusões, todos os seus sonhos de artista e todas as lágrimas da sua alma primitiva.

E quando voltei de lá, sentindo ainda cantar-me aos ouvidos a melancolia daquela vaporosa música do passado, tive assomos de amaldiçoar esta pátria burguesa, esta mãe desalmada, que não tem seios para acalentar os seus poetas.

E agora, quando me disseram que Sizenando Nabuco acabava de morrer, foi ainda a lembrança dessa noite de escavações literárias, essa noite de passeio pelos cemitérios do seu passado, que me veio ao coração como uma triste e pálida figura de saudade, assentar-se ao lado da palpitante dor de o saber morto.

O Combate, 18 de março de 1892

 

   

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