Pelo Caminho, Conto de Aluísio Azevedo

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Pelo Caminho

Durara a pândega a noite inteira; uma dessas orgias banais, grosseironas, genuinamente fluminense; que principiam por um jantar de hotel, em gabinete particular, continuam durante a representação de qualquer teatro, depois durante a ceia no München, até às duas ou três horas da manhã, para terminar por um invariável passeio de carro aos arrabaldes da cidade.

Os quatro pândegos, dois rapazes e duas raparigas armados de algumas garrafas de Cliquot, foram dar com os ossos na Tijuca quando o dia repontava.

O carro havia parado, e os libertinos, de taça em punho, sopeavam a relha do champagne, prontos para saudar o primeiro raio de sol que lhes viesse iluminar a orgia daquela noite perdida. Estavam perto da raiz da serra, numa encosta em que velhas árvores tranqüilas pareciam encolher-se de frio ao orvalhado relento. As montanhas, como gigantes estendidos ao longo do horizonte, dormiam ainda, agasalhadas nos seus lençóis de neblina. O repousado aspecto da natureza contrastava com a feição dissoluta daquela libertinagem ao ar livre. Do grupo dos folgazões evolava-se um capitoso vapor de loucura em pleno viço, de estroinice em flor, uma forte exalação de mocidade que ferve e crepita ao doido fogo dos primeiros vícios.

Irradiou o sol e as taças ergueram-se transbordantes.

– Ao amor! Ao prazer!

– Hurrah!

O bramido alegre ecoou na solidão dos vales, e uma das loureiras abriu a cantar uma cançoneta bufa, acompanhada nos estribilhos pelos três companheiros.

Entretanto, nessa mesma direção, outro grupo bem diverso lentamente se aproximava, subindo a estrada em tardio e cansado passo.

Era naturalmente algum enfermo acompanhado pela família, que demandava a serra da Tijuca, em busca de salvação nos ares puros. Vinha na frente uma cadeirinha carregada à moda antiga por dois negros; ao lado dela, caminhando a pé, guardava-lhe a portinhola um homem de cabelos brancos e respeitável aparência, o ar solícito e pesaroso; e, logo atrás, arrastava-se uma velha e triste carruagem de aluguel, com a cúpula fechada.

O novo grupo parou defronte do primeiro. Calaram-se os estróinas, e um destes, reconhecendo o homem que guardava o palanquim, ergueu-se, lívido e trêmulo de comoção. É que, por aquele velho, podia calcular com segurança quem era a infeliz criatura que ia ali enferma ou talvez moribunda. E, através das névoas da sua embriaguez, começou-lhe por dentro a ofegar a consciência, na medrosa previsão de remorsos e vergonha.

Os negros depuseram no chão o palanquim, desviaram do varal os ombros fatigados e afastaram-se, para descansar um instante.

Moveu-se então a cortina da portinhola; débil mãozinha arredou-a de dentro com dificuldade, e uma feminil cabeça loura surgiu à luz dourada da manhã. No rosto, mais pálido que o de uma santa de cera, fulguravam-lhe os olhos com estranho brilho.

E esses olhos deram com os olhos que a fitavam do outro grupo e cintilaram mais forte, num relâmpago seguido de um grito, que a cortina do palanquim abafou logo.

O moço, que a custo se conservara de pé no carro deixou-se cair sobre as almofadas cobrindo o rosto com as mãos, enquanto os outros libertinos, esgotando a última taça, gritaram ao cocheiro que tocasse para a cidade.

O carro disparou.

– Ao amor! Ao prazer!

– Hurrah!

II

Tinham sido namorados. Ele era rico e belo, a moça pobre e de feições modestas. O namoro fora em casa da família dela, antes do bandoleiro se ter atirado à vida dos prazeres.

Um dia, depois de todos os juramentos trocados na linguagem dos olhos e na linguagem dos sorrisos, ele aproximou a sua cadeira da máquina de costura em que a moça trabalhava, e segredou:

– Se eu tivesse plena certeza de que me amas!…

Ela estremeceu e corou, abaixando os olhos.

Ele prosseguiu no mesmo tom: – E quanto sofro a pensar nisto!…. São vagos desejos incompletos, um querer sem vontade, um desejar sem ânimo… E, no entanto, minha flor, sinto que me falta na vida alguma cousa, que talvez não seja só a tua ternura… Se me perguntarem o que é, não saberei responder… mas sinto que preciso dedicar-me a qualquer ideal, sacrificar-me por qualquer amor!

Ela deixara de coser e não levantava o rosto. Ele aproximou mais a sua cadeira e segredou ainda, tomando-lhe as mãos: – Tu me amas?… Fala!…

A moça estremeceu mais forte e levantou para o seu amado os olhos transparentes, no fundo dos quais brilhava agora o reflexo de uma esperança feliz.

– Sim… balbuciou, enrubescendo.

E por um instante sua doce alma de donzela sentiu aproximar-se a música de uma confissão de amor. E seu coração abriu, de par em par, as pétalas viçosas, para recolher a palavra ambicionada, a palavra insubstituível na vida da mulher. – Amo-te! – o sagrado “Amo-te” que toda a mulher, para ser feliz, precisa ter ouvido, da boca de um homem, pelo menos uma vez na existência.

Mas a desejada palavra não chegou aos ouvidos da moça, nem passou dos lábios irresolutos do seu namorado.

Alguém interrompeu o idílio. A leviana cadeira afastou-se, sem declarar o que tinha a dizer à modesta maquinazinha de costura.

III

Depois que o bandoleiro se ausentou de todo, a pobre moça ia contando os dias pelos progressos da sua mágoa. A dor e a tristeza cristalizaram-se em moléstia. Demais, fora sempre propensa às afecções pulmonares; a melindrosa suscetibilidade do seu frágil organismo reclamava, para o milagre da vida, o milagre do amor.

Como toda moça casta, sem brilhante prestígio de ouro ou de beleza, fora sempre concentrada e retraída. Não dividia com outros os seus tímidos desgostos de donzela e as suas humildes decepções de menina pobre. Um como íntimo recato de orgulhosa franqueza, um como consciente pudor da sua imaculada inferioridade, um como decoro da sua virtude inútil, faziam-na reprimir os soluços diante da família e das amigas, recalcando em segredo as lágrimas vencidas, que lhe subiam do coração e para o coração voltavam, sem ninguém que as compreendesse ou enxugasse.

Nunca lhe ouviram a sombra de uma queixa. Todavia, na sua angelical credulidade, chegara a crer houvesse, no circo ginástico da vida, alguma cousa entre os homens que não fosse egoísmo só e vaidade; chegou, pobre inocente! a supor que o fato de ser meiga dócil, virtuosa e pura lhe valeria o amor do moço pelo seu coração eleito. E uma vez desiludida, a sua feminilidade, em vez de expandir em flor o aroma dos vinte anos, fechou-se em botão, para nunca mais recender, vencida, como foram vencidas as suas lágrimas.

E também nunca mais lhe voltaram às faces as rosas que a natureza aí lhe tinha posto para atrair as asas dos beijos amorosos; nem aos olhos tampouco lhe voltaram as alegrias com que dantes esperavam sorrindo o “Amo-te” sagrado.

Enfermou de todo. Afinal sua existência era já um caminhar seguro para a morte. O pai estalava de desespero sentindo fugir-lhe irremissivelmente aquela vida estremecida, pouco a pouco, como um perfume que se evapora. Ela sorria, resignada. Estava cada vez mais abatida, mais fraca, parecia alimentar-se só com a muda preocupação da sua mágoa sem consolo. O pai levou-a a princípio para o Silvestre, depois para a raiz da serra da Tijuca; o médico, porém, à proporção que a moléstia subia, ordenou que fossem também subindo sempre em busca de ares mais puros.

E lá iam eles, como um bando de foragidos, a fugir diante da morte. Só a doente parecia conformada com a situação, os mais se maldiziam e choravam. Ela sorria sempre, sempre triste, com o rosto levemente inclinado sobre o ombro.

Já quase se não distinguiam as suas falas, e só pelos olhos verdadeiramente se exprimia, que esses eram agora mais vivos e penetrantes. Às vezes, como se pretendesse desabituar-se de viver, fugia para um profundo cismar, de que a custo desmergulhava estremunhada. Pedia nesses momentos que lhe abrissem a janela do quarto, e o seu olhar voava logo para o azul, como mensageiro da sua alma que também não tardaria, com o mesmo destino, a desferir o vôo.

E assim foi que a maquinazinha de costura para sempre se conservou fechada e esquecida a um canto da modesta sala de jantar. Nunca mais a leviana cadeira se aproximou dela, para declarar o que lhe tinha a dizer.

IV

– Ao Amor! Ao Prazer! Hurrah! blasfemou o eco.

E o carro dos libertinos sumiu-se na primeira dobra da estrada.

O campo recaiu na sua concentração murmurosa.

A cadeirinha continuava no ponto em que a depuseram. O sol, ainda brando, derramava-se como uma bênção de amor e nuvens de tênue fumo brancacento desfiavam-se no espaço, subindo dos vales como de um incensório religioso. O céu tinha uma consoladora transparência em que se lhe via a alma; pássaros cantavam em torno da tranqüila moribunda; ouvia-se o marulhar choroso das cascatas, a súplica dos ventos, a prece matinal dos ninhos. Toda a natureza parecia em oração.

A moça pediu que lhe abrissem a porta do palanquim e, reclinada sobre o colo do pai, fitou o espaço com o seu olhar de turquesa úmida. O azul do céu compreendeu o azul daqueles olhos celestiais. Houve entre eles um idílio mudo e supremo.

Ninguém em torno dava uma palavra; só se ouviam os murmúrios da mata, acordando ao sol e os esgarçados ecos da música dos Meninos Desvalidos que, para além da serra, tocava a alvorada. A moça continuou a olhar para o azul, como se se deixasse arrebatar lentamente pelos olhos. Encarou longo e longo tempo o espaço, sem pestanejar. Depois, duas lágrimas apontaram-lhe nas pálpebras imóveis e foram descendo silenciosas pela palidez das faces. Um sorriso que já não era da terra pairou um instante à superfície dos seus lábios puros.

Estava morta.

 

   

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