terça-feira, maio 21, 2024

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Contos, Crônicas e PoesiasFernando Pessoa

Sinfonia da noite inquieta, Texto de Bernardo Soares (Fernando Pessoa)

Sinfonia da noite inquieta

Os crepúsculos nas cidades antigas, com tradições desconhecidas escritas nas pedras negras dos edifícios pesados; as antemanhãs trêmulas nas campinas alagadas, pantanosas, úmidas como o ar antes do sol; as vielas, onde tudo é possível, as arcas pesadas nas salas vetustas; o poço ao fundo da quinta ao luar; a carta datada dos primeiros amores da nossa avó que não conhecemos; o mofo dos quartos onde se arrecada o passado; a espingarda que ninguém hoje sabe usar; a febre nas tardes quentes à janela; ninguém na estrada; o sono com sobressaltos; a moléstia que alastra pelas vinhas; sinos; a mágoa claustral de viver… Hora de bênçãos tuas mãos sutis… A carícia nunca vem, a pedra do anel sangra no quase-escuro… Festas de igreja sem crença na alma: a beleza material dos santos toscos e feios, paixões românticas na idéia de tê-las, a maresia, à noite entrada, nos cais da cidade umedecida pelo arrefecer…
Magras, tuas mãos alam-se sobre quem a vida seqüestra. Longos corredores, e as frestas, janelas fechadas sempre abertas, o frio no chão como as campas, a saudade de amar como uma viagem por fazer às terras incompletas… Nomes de rainhas antigas… Vitrais onde pintaram condes fortes… A luz matutina vagamente espalhada, como um incenso frio pelo ar da igreja concentrado no escuro do chão impenetrável… As mãos secas uma contra a outra.
Os escrúpulos do monge que, no livro antiqüíssimo encontra, nos algarismos absurdos, ensinamentos dos magos, e nas estampas decorativas os passos da Iniciação.
Praia ao sol a febre em mim… O mar luzindo a minha angústia na garganta… As velas ao longe e como andam na minha febre… Na febre as escadas para a praia… Calor na brisa fresca, transmarina, mare vorax, minax, mare tenebrosum – a noite escura lá longe para os argonautas e a minha testa a arder as caravelas primitivas…
Tudo é dos outros, salvo a mágoa de o não ter.
Dá a agulha a mim… Hoje faltam no seio de casa os seus passos pequenos e o não se saber onde ela está metida, tudo o que estará a lavrar com pregas, com cores, com alfinetes. Hoje as suas costuras estão fechadas para sempre em gavetas de correr na cômoda – supérfluas – e não há o calor de braços sonhados à roda do pescoço da mãe.

Texto publicado em Livro do Desassossego.

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