Viagem nunca feita (E assim escondo-me), Texto de Bernardo Soares (Fernando Pessoa)

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Viagem nunca feita (E assim escondo-me)

E assim escondo-me atrás da porta, para que a Realidade, quando entra, me não veja. Escondo-me debaixo da mesa, donde, subitamente, prego sustos à Possibilidade. De modo que desligo de mim, como aos dois braços de um amplexo, os dois grandes tédios que me apertam – o tédio de poder viver só o Real, e o tédio de poder conceber só o Possível.
Triunfo assim de toda a realidade. Castelos de areia, os meus triunfos?… De que coisa essencialmente divina são os castelos que não são de areia?
Como sabeis que, viajando assim, não me rejuvenesco obscuramente?
Infantil de absurdo, revivo a minha meninice, e brinco com as idéias das coisas como com soldados de chumbo, com os quais eu, quando menino, fazia coisas que embirravam com a idéia de soldado.
Ébrio de erros, perco-me por momentos de sentir-me viver.

Texto publicado em Livro do Desassossego.

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