A Praia de Santa Luzia, Conto de Artur Azevedo

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A Praia de Santa Luzia

Maurício casara-se muito cedo, aos dezenove anos, e era feliz, porque ia completar os vinte e quatro sem ter o menor motivo de queixa contra vida conjugal.
Justiça se lhe faça: era marido exemplaríssimo em terra tão perigosa para os rapazes de sua idade. Tinha essa virtude burguesa, que as mulheres amantes colocam acima dos sentimentos mais elevados: era caseiro. Ia para a repartição às nove horas, e às quatro estava em casa, invariavelmente. Só por exceção saía à noite, mas acompanhado por sua mulher. Adorava-a.
Adorava-a, mas um dia…
Não! não precipitemos o conto; procedamos com método:
Maurício exercia na Alfândega um modesto emprego de escriturário, e, como residisse nas proximidades do Passeio Público, e era por natureza comodista e ordenado, tomava sistematicamente, às nove horas, o bondinho que contornava parte do morro do castelo, e ia despejá-lo no Carceler, perto da repartição.
Habitou-se a atravessar todas as manhãs dos dias úteis a praia de Santa Luzia, e, afinal, tanto se apaixonara por esse sítio, realmente belo, que por coisa alguma renunciaria ao inocente prazer de contemplá-lo com tão rigorosa pontualidade.
Num dia as montanhas da outra banda pareciam desfazerem-se em nuvens tênues e azuladas, confundindo-se com o horizonte longínquo; noutro, violentamente batidas pelo sol, tinham contornos enérgicos e destacavam-se no fundo cerúleo da tela maravilhosa. O outeiro da Glória, a fortaleza de Villegaig Prenuncianon, a ponte pedregosa do Arsenal de Guerra, — tudo isso encantava o nosso Maurício pelos seus diversos e sucessivos aspectos de coloração. Era ali e só ali que notava e lhe comprazia a volubilidade característica da natureza fluminense — moça faceira que cada dia inventa novos enfeites e arrebiques.
E o belo e opulento arvoredo defronte da Santa Casa? Como era agradável atravessar a sombra daquelas árvores frondosas e venerandas, cuja seiva parece alimentada por tantas vidas que se extinguem no hospital fronteiro!
A praia de Santa Luzia de tal modo o extasiava, que, ao passar pelo Necrotério, Maurício descobria-se, mas desviava os olhos para que o espetáculo da morte não lhe desfizesse a boa e consoladora impressão do espetáculo da vida.
Notava com desgosto que outros passageiros do bondinho estendiam o pescoço, voltando-se para inspecionar a lúgubre capelinha. Pela expressão de curiosidade satisfeita, ou de contrariedade, que ele claramente lia no rosto desses passageiros, adivinhava se havia ou não cadáveres lá dentro.
Um velhote, com quem se encontrava assiduamente no bondinho, e já o cumprimentava, de uma feita o aborreceu bastante, dizendo-lhe, depois de olhar para o Necrotério: — Três hóspedes!
Foi morar para a Rua de Santa Luzia, numa casinha baixa, de porta e janela, certa família pobre, de que fazia parte uma lindíssima rapariga dos seus dezoito anos, morena, desse moreno purpúreo, que deve ser a cor dos anjos do céu.
Maurício via-a todas as manhãs, e não desviava os olhos, como defronte do Necrotério; pelo contrário, incluiu-a na lista dos prodígios naturais que o deslumbravam todos os dias. A morena ficou fazendo parte integrante do panorama, em concorrência com a serra dos Órgãos, o outeiro da Glória, o ilhote de Villegaignon e as árvores da Misericórdia.
Aquele olhar cronométrico, infalível, à mesma hora, no mesmíssimo instante, acabou por impressionar a morena.
Pouco tardou para que entre o bondinho e a janela se estabelecesse ligeira familiaridade. uma dia a moça teve um gesto de cabeça, quase imperceptível, e Maurício instintivamente levou a mão ao chapéu. Daí por diante nunca mais deixou de cumprimentá-la.
Quinze dia depois, ela acompanhou o cumprimento por um sorriso enfeitado pelos mais belos dentes do mundo, e isso lhe revelou, a ele, que a beleza de tão importante acessório do seu panorama também variava de aspecto.
Maurício correspondeu ao sorriso, maquinalmente, com os dois lábios curvados por uma simpatia irresistível, — e se os dois jovens já se não viam sem se cumprimentar, de então em diante não se cumprimentavam sem sorrir um para o outro.
Um dia o cumprimento mudou inesperadamente de forma; ela disse adeus com a mãozinha, agitando os dedos, com muita sem cerimônia, como o faria a algum amigo íntimo. Ele imitou-a, num movimento natural, espontâneo. quase inconsciente.
Estavam as coisas neste ponto — o fogo ao pé da pólvora — quando um dia, depois do cumprimento e do sorriso habitual, um moleque saltou levípede à plataforma do bondinho, e entregou uma carta à Maurício.
— Esta que Sinhazinha mandou.
O moço, muito surpreso e um pouco vexado, pois percebeu que o velhote, o tal da pilhéria dos três hóspedes, e dois estudantes de medicina riam à socapa, guardou a carta no bolso, e só foi abri-la Alfândega.
“Me escreva e me diga como chama-se em que ano está e quando se forma, e quero saber se gostas de mim por passatempo ou se pedes a minha mão a minha família, que é meu pai, minha mãe e um irmão. Desta que lhe ama. — Adélia.”
Maurício caiu das nuvens, e só então reparou que cometera uma monstruosidade. Nunca lhe passara pela cabeça ideias de namoro, amava muito sua mulher, a mãe do seu filho, e era incapaz de traí-la, desencaminhando uma pobre menina que o supunha solteiro e estudante, e era para ele apenas um acessório do seu panorama.
Aquela carta surpreendera-o tanto, como se a própria fortaleza de Villegaignon lhe perguntasse: — Quando te casas comigo? — ou a ermida da Glória lhe dissesse: — Pede-me a papai!…
Nas ocasiões difíceis Maurício consultava o seu chefe de seção, que o apreciava muito.
Expôs-lhe francamente o caso, e perguntou-lhe:
— Que devo fazer?
— Uma coisa muito simples: nunca mais passar pela praia de Santa Luzia. Olhe que o menos que pode arranjar é uma tunda de pau!
— Mas o senhor não imagina o sacrifício que me aconselha! A praia de Santa Luzia entrou de tal forma nos meus hábitos, que hoje até me parece indispensável à existência; Por amor de Deus, não me prive da praia de Santa Luzia.
— Nesse caso, diga-lhe francamente que é casado.
— Dizer-lhe… Mas como?
— Amanhã, quando passar, em vez de cumprimentá-la, mostre-lhe o seu anel de casamento. Ela compreenderá. Maurício cumpriu a recomendação à risca, e Adélia viu perfeitamente a grossa aliança de ouro.
Mas no dia seguinte a moça esperou-o ainda mais satisfeita e risonha que na véspera — e o moleque, trepando pela segunda vez à plataforma do carro, entregou a Maurício outra cartinha.
— Que diabo! pensou ele, guardando a epístola. Ela sorria. Vaidade feminina, não é outra coisa… Sorria para que eu não a supusesse despeitada. As mulheres são assim. Faço ideia da descompostura que aqui está escrita! Enganava-se:
“Meu amor — Vejo que você já comprou sua Aliança e eu também ontem mesmo encomendei a minha, amanhã passa a pé e me diz quando formas-te e quando pedes-me a meu pai. Nem sei o teu nome. Tua até morrer. Adélia.”
Maurício tomou — pudera! — a heroica e sublime resolução de se privar da praia de Santa Luzia.

Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)

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